“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”

Mateus capítulo 5, versículo 3

A senhora Monique Marins Rezende Jardim era uma madame muito bem apanhada, freqüentemente confundida como irmã de sua filha. Isso lhe deixava muito feliz, não era a toa que ela dedicava no mínimo duas horas por dia na sua academia particular na suntuosa casa dos Rezende Jardim no condomínio Aldeia do Valle.
Á pedido do senhor Mauro Ortiz Rezende Jardim, seu elegante esposo, (o qual todos os dias tinha as vestes minuciosamente escolhidas pela esposa conforme sua agenda de encontros importantes com importantíssimas personalidades goianas), Monique se voluntariou na OVG. Apesar de não ter gostado muito a princípio, na primeira reunião das voluntárias de Goiás ela se surpreendeu, afinal ali estavam Oneide Menezes Perilo, Fátima Albuquerque Rodrigues, dentre outras de suas grandes amigas. Madame Monique se sentiu em casa. Sua primeira atividade de caridade foi fazer uma reuniãozinha regada a vinho do porto e cabernet argenino, acompanhados de quitutes da confeitaria Richesse.

Ilustres amigas, é com grande prazer que lhes ofereço esse humilde cokteil. Eu lhes chamei aqui hoje porque quero compartilhar um sentimento que tem me tirado o sono. Vivemos num mundo de injustiças e nem todos tem as mesmas chances que nós tivemos. Mas aos olhos de Deus somos todos irmãos e irmãs, apesar de uns serem mais sujos e mal educados que outros. O que fazer então para amenizar o sofrimento de tantos e tantas, irmãos e irmãs, que passam frio e fome? Vocês já viram como é quase insuportável andar pela avenida Goiás durante o dia, aquele tanto de gente suja e descalça na rua, pedindo dinheiro, eu fico horrorizada. É por isso que decidi ajudar as pessoas que precisam, e decidi ajudar da melhor forma: sendo uma voluntária da OVG. Diante disso, gostaria de dizer que estarei arrecadando roupas velhas, cobertores ou coisas antigas que não têm mais serventia. Se vocês quiserem ajudar a combater as desigualdades sociais podem se unir a nós da OVG, podem doar as coisas que não lhes têm mais serventia, e nós encaminharemos o arrecadado para as famílias que precisam mais do que nós.

Entre bochichos e cochichos Monique terminou seu discurso e foi aclamada com uma salva de palmas agudas seguidas de congratulações e beijos educadamente higiênicos no rosto, de modo a não desmanchar a maquiagem. Ah, como ela se sentiu feliz, era a primeira vez que reconheciam sua bondade de coração, imagina a cara da Gerlane aquela empregada despeitada que havia lhe xingado de suvina, mão de vaca, de piranha, de mocréia, nossa de tanta coisa que ela evitou seguir pensando nisso, e só porque ela não quis adiantar o décimo terceiro. Ora, aquelazinha teve o que mereceu, foi despedida e não recebeu nenhum centavo do que tinha direito, afinal ela precisava de uma lição. As doações foram um sucesso. Monique ficou surpreendida porque a grande maioria de suas amigas fizeram doações em cheques nominais, poucas doaram objetos ou comida. Era mais fácil se despreender de uma pequena quantia de dinheiro do que de coisas mesmo inúteis que tinham uma certa história.

Depois de algumas semanas, Monique foi ao centro da cidade para depositar os cheques. Os objetos e a comida já estavam na sede da OVG, certamente já bem direcionadas as famílias carentes atendidas pela organização. Valter, seu motorista particular, lhe conduziu até o banco Santander da avenida Goiás que fica do lado do edifício Dom Pedro II próximo a Paranaíba.

-Valter, eu volto em cinco minutos, me espere aqui por favor.

-Sim, madame.

Valter viu a madame entrar no banco e olhou no relógio, faltavam cinco minutos para as quatro horas da tarde. Nem desligou o carro. Ficou com um pouco de receio porque o segurança da madame estava doente e não pôde acompanhá-la. Valter ficou atento a qualquer movimentação suspeita. Quando Monique foi saindo do banco, um menino de rua foi em sua direção.

Ei, ei, ei…

Monique se assustou, mas olhou para tras e viu do que se tratava. Valter desligou o carro e saiu.

A senhora tem um trocadinho para eu fazer um lanche?

Madame Monique, sorriu ternamente como a Xuxa em seu Xou, fez festinha na cabeça da criança e disse:

Oh meu filho eu até de daria um trocado, mas se você lanchar agora, você não vai jantar mais tarde e sua mãe não vai gostar nada disso, né? - e saiu limpando as mãos e sem olhar para trás.

Éveri Sirac Brasília, 24 de abril de 2007