chegou em casa e deitou-se de lado, de bruço, de costas, de frente, de todos os lados que conhecia; só se adequou quando enfiou a cabeça embaixo do travesseiro. e ficou lá, parado, pensando com os olhos fechados, navegando. queria chorar, mas não conseguia, sua cabeça não parava de martelar na história construída por aquele amor platônico que ele sentia.
nunca demonstrou, não contou para ninguém, mas vivia o mais belo romance como ninguém sabia - vivia e amava loucamente, às vezes, até paranoicamente, mas só no seu íntimo, no íntimo de seu ser.
foi terrivelmente surpreendido por uma amiga, quando ela lhe contou que sua amada havia se casado (como assim?, se perguntava, ele tampouco sabia que ela estava noiva), respondeu apenas: ah é? legal.

a amiga não sabia, mas acabava de destruir um grande amor, de cortar um coração em fatias finas e compridas e picotá-las logo em seguida, de botar fogo em pele, de afogar um ser.. com apenas algumas palavras…

ele se sentia sem ar, e sem ar continuou sentindo-se até adormecer. sem ar. a… mar.

do amor que foi criado
restou cinza e pó.
da criação, restou um pobre coração,
adoecido.

dos olhos,
faltaram as lágrimas.